Segundo Antonio Orbe, Orígenes oferece uma possível exegese da parábola:
Resumo da Exegese de Orígenes e dos Valentinianos sobre a Parábola do Filho Pródigo
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I. O Testemunho de Orígenes sobre a Exegese Valentiniana (Heracleão)
- Orígenes, embora considerando os testemunhos de Heracleão não excessivos, apresenta e critica a interpretação gnóstica valentiniana da parábola, que ele perfila indiretamente.
- Heracleão, comentando João 4:23, identifica os "verdadeiros adoradores" ou "domésticos do Pai" (to oikeion to patri) como uma natureza espiritual que se havia perdido na profunda matéria do erro e é buscada (por Cristo) para que o Pai seja adorado por esses próprios familiares.
- Orígenes reconhece que, se Heracleão se apoiasse claramente nas parábolas da ovelha perdida e do filho pródigo, sua explicação seria acolhida, mas critica a tendência valentiniana de "mitologizar" com escrúpulos sobre a perdição de uma natureza espiritual sem esclarecer os tempos anteriores a essa queda, preferindo, por isso, apenas urgir a dificuldade que tais mitos apresentam.
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II. A Interpretação Valentiniana da Parábola
- Conceito Central: Para os valentinianos, a parábola simboliza a trajetória da natureza espiritual (pneumática) através do mundo da matéria, desde sua origem divina até sua redenção final.
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As Três Fases do Filho Pródigo (Igreja Pneumática Terrena):
- a) Na Casa Paterna: Estado impessoal na Sabedoria e Mente (Nous) do Pai, antes da descida ao mundo material.
- b) Na Diáspora Material: Fase de desenvolvimento no cosmos material, onde a substância espiritual (comparada à amorpha ousia de Lc 15:12) se dispõe para a perfeição ( teleiotes ) pessoal e divina; período que durou desde a aparição do homem até a redenção pelo Salvador no Novo Testamento.
- c) O Retorno: Regresso à casa paterna mediante a gnosis (conhecimento) do Salvador, onde os espirituais, tornados "masculinos" ( apandrothentes ), retornam sem perder sua individuação.
- O Filho Maior (Igreja Pneumática Celeste): Por paralelismo com as 99 ovelhas não perdidas, o filho maior que nunca saiu de casa representaria a Igreja angélica ou celestial, assídua na casa do Pai.
- Limitações da Alegoria: A exegese valentiniana, embora explicando muitos aspectos, deixaria elementos não harmonizáveis, como a atitude pouco benévola do filho maior, incompatível com o interesse que a Igreja angélica deveria ter pela humana.
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III. A Exegese de Orígenes e a Tradição Cristã
- Perda da Homilia: A exegese de maior interesse de Orígenes sobre Lucas 15:11-32 perdeu-se com o desaparecimento da homilia pertinente, podendo ser parcialmente reconstituída a partir de autores como São Jerônimo e Gregório de Nissa.
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O Bezerro como Cristo (Sacrifício Paternal):
- Orígenes, seguindo uma tradição (como o Pseudo-Bernabé), identifica alegoricamente o bezerro cevado sacrificado pelo pai com Cristo.
- O bezerro "bom e tenro" de Abraão (Gn 18:7) prefigura aquele que "se humilhou até a morte" (Fl 2:8) e "deu a vida pelos amigos" (Jo 15:13).
- O sacrifício do bezerro pelo pai na parábola indica que o Pai Deus é o autor do sacrifício, enviando seu Filho ao mundo para dar vida a ele (Jo 3:16; 6:52).
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O Bezerro como Oferenda Humana (Levítico 1:2):
- Numa exegese audaz, Orígenes também vê no "homem" que oferece um novilho em Lv 1:2 o gênero humano extraviado.
- Este homem, não tendo nada de valor próprio para oferecer (por tê-lo dissipado), acha e oferece a Deus o bezerro imaculado (Cristo), que é "macho" (ignorando o pecado) e sem mácula, vindo da linhagem patriarcal.
- Harmonização: Ambas as perspectivas (o Pai que sacrifica e o homem que oferece) harmonizam-se na base do símbolo vitulus = Christus, representando o Filho submetido ao sacrifício tanto em favor dos homens quanto por eles.
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IV. Exegese Moral e Espiritual em Orígenes
- O Pecado do Pontífice (Levítico 4:3): O pontífice que peca e sacrifica um bezerro simboliza o senso religioso interior ( nous ) do indivíduo; quando este falta, corrompe todas as boas ações internas, e sua emenda requer nada menos que o sacrifício de Cristo.
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Conversão como Purificação e Graça: A conversão, como a do pródigo, envolve dois momentos:
- Purificação: Saída do pecado, obra direta do convertido.
- Infusão da Graça: Recebimento do "dom da graça do Espírito" (simbolizado pela primeira estola e o anel), que é obra exclusiva de Deus Pai, mediante Jesus Cristo, restituindo o pecador à dignidade de filho.
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A "Cidade" como o Mundo e a "Perdição Salutar":
- O "cidadão" ou "príncipe" da cidade a quem o pródigo se une (Lc 15:15) é interpretado como o diabo, o "príncipe deste mundo".
- Cristo, a "estrela de Jacó", "perde" de forma salutar o que ele libertou da cidade do mundo, meaning que mortifica a alma, refreando desejos e cobiças para que se inicie uma nova vida em Deus.
- A humilhação do pródigo junto ao diabo (cuidando de porcos) é, paradoxalmente, o meio providencial pelo qual Cristo opera essa "perdição salutar" que leva à salvação.
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V. Temas Complementares na Exegese de Orígenes
- Deus que se Aproxima: Orígenes enfatiza que é o homem quem se afasta de Deus, a "fonte de água viva", e não o contrário; no entanto, o Pai é chamado de "Deus que se aproxima" ( theos engizon ), correndo ao encontro do filho pródigo que retorna, demonstrando sua iniciativa amorosa.
- A Sinfonia da Concórdia: A música (sinfonia e coros) ouvida na casa representa a harmonia musical que celebra a restauração da concórdia ( symphonia ) entre a alma (filho) e Deus (pai), quebrada pelo pecado e restaurada pela penitência.
- A Restituição Limitada na Igreja Terrena: Embora Deus restitua plenamente o pecador arrependido, como o pai fez com o pródigo, a Igreja na terra, por imperfeição de sua caridade e prudência, nem sempre restitui a postos de proeminência aqueles que caíram com grave escândalo.
- Vendedores vs. Compradores no Templo: Orígenes associa os vendedores expulsos do templo ao filho pródigo, pois ambos se desfazem do que possuíam (as pombas / a substância paterna), diferentemente dos compradores, que as conservam.